Alguns anos já se passaram na trajetória do caminho ocultista, e, às vezes, sinto
falta da simplicidade de como as coisas eram no início, quando as maiores
preocupações eram se os rituais dariam ou não resultados, se as entidades se
manifestariam e se as leituras de Tarot acertariam as previsões.
Os anos passam, e a maturidade espiritual vem com eles. Questões filosóficas
começam a ocupar boa parte da mente, e a espiritualidade se apresenta de uma
forma muito mais profunda do que jamais imaginei.
Em meio às complexas questões existenciais, os dois grandes caminhos da
espiritualidade são apresentados: Mão Esquerda e Mão Direita.
A Mão Direita surge para mim de forma muito natural, talvez pelo contexto da minha
criação em um berço religioso cristão, somado ao contato com forças angelicais
desde o início da caminhada na magia, mas, sobretudo, pela frustração pessoal e
visão pessimista do mundo em que vivemos.
A vida passa, e a observação da realidade ao meu redor me fez enxergar o caos em
que vivemos: a realidade nua e crua de que a maioria dos seres humanos passa a
vida perdida em seus anseios, cega em sua ignorância e, muitas vezes, escravizada
pelo próprio ego. A expansão da consciência, obtida através do desenvolvimento
espiritual, é bonita, mas também cruel. A sujeira do mundo se torna muito mais
evidente e, paradoxalmente, o desejo de aproximação com o divino surge do ódio
em relação a uma criação divina.
Evoluir, transcender e superar o ego tornam-se válvulas de escape para o receio de
se tornar mais um entre os milhões de seres humanos que vivem robotizados. A
busca do equilíbrio e da ordem passa a ser o remédio para conseguir sobreviver a
uma sociedade doente, e a integração com o Todo, com um propósito maior, surge
como a resposta em meio a um mundo que parece perdido. Assim, o Caminho da
Mão Direita começa a fazer sentido.
Incessantes meditações e rituais teúrgicos, em comunhão com as forças divinas,
trouxeram-me a paz e a plenitude tão procuradas. Embora, para isso, eu tenha
precisado muitas vezes abrir mão de diversos desejos e basear minhas escolhas
nos conselhos de forças maiores, em prol do meu próprio bem e evolução.
Durante muitos anos, o Caminho da Mão Direita foi a direção para todos os meus
passos. Mas, em certo ponto, algo começou a me incomodar, como se algo faltasse,
como se esse ainda não fosse o caminho definitivo.
A peça faltante do quebra-cabeça, para minha surpresa, foi encontrada no caminho
oposto: o Caminho da Mão Esquerda.
O caminho onde a transcendência e a integração com o divino não são a prioridade,
mas sim a auto deificação, a exaltação dos potenciais individuais e a satisfação de
viver as experiências proporcionadas por aquilo que o ego deseja.
E, por falar no ego, ele volta novamente a ser o cerne da questão.
Por conta do instinto humano de socializar, obviamente me inspirei em outros
buscadores que também trilhavam o Caminho da Mão Direita, cujos discursos
sempre enfatizavam a importância de superar o próprio ego e iluminar-se através da
purificação de todos os desejos mundanos.
Essa foi a verdade que tentei seguir, mas que se chocou inevitavelmente contra a
realidade material, contra meu trabalho, contra minhas obrigações enquanto
indivíduo e, principalmente, contra a minha convivência entre família e amigos.
Como diluir o próprio ego em um mundo onde precisamos ser alguém? Como
abster-se dos desejos e ambições materiais quando você vê sua família sofrendo
com dificuldades financeiras? Como suprimir os instintos primitivos quando é
preciso ser feroz para defender aqueles que você ama?
Essas questões assombraram minha mente por diversas vezes, até que, em algum
momento, não sei exatamente quando, a resposta surgiu:
O ego não precisa ser destruído; ele precisa ser equilibrado.
Nossos desejos e nossas características individuais não são algo a ser suprimido,
mas sim compreendidos, assimilados e dosados de uma forma que nos permita
viver uma realidade saudável, sem excessos que prejudiquem nossa evolução.
No mundo moderno, a não ser que você abandone tudo e fuja para as montanhas
para viver exclusivamente em prol da meditação e iluminação, você precisará do
seu ego. Você deverá cultivar sua individualidade, pois é através dela que você
viverá a vida cotidiana, ajudará pessoas, compartilhará conhecimento e
proporcionará momentos de vivência.
Os extremos, muitas vezes, são prejudiciais, e o segredo para não se perder em
meio aos caminhos de Mão Direita e Esquerda é tomar cuidado com os excessos,
prezando pelo equilíbrio. É justamente esse o encontro com o Caminho do Meio.
Um caminho que, de início, pode parecer confuso. Equilibrar a individualidade e a
autonomia com a integração ao Todo e a submissão a uma força maior é realmente
paradoxal. Mas, curiosamente, aquela mesma visão da feiura do mundo que me fez
buscar o divino também me fez enxergar a beleza do mundo: seja no céu, na
natureza, ou, principalmente, nos detalhes da vida, na alegria de estar com as
pessoas que amo, no prazer de viver uma nova experiência, na satisfação de
superar um desafio ou na simples sensação de respirar um ar puro e sentir-se vivo.
O mundo material, apesar de suas sombras, é uma das criações mais
extraordinárias do divino. E, pensando que estamos aqui encarnados, por que não
aproveitar essa experiência? Por que não fazer da vivência humana uma
oportunidade de aprender com os erros e acertos da vida, cujos aprendizados se
transformarão em conhecimento e enriquecerão nossa alma, lançando-nos pelo
caminho da evolução espiritual?
O Caminho do Meio, diferente do que muitos pensam, não se trata de indecisão ou
neutralidade, mas sim da consciência da importância das características dos
Caminhos da Mão Direita e Esquerda. É um caminho onde o equilíbrio é a resposta
para todas as questões existenciais.
Para quem está começando…
A jornada pode parecer, no início, cheia de confusão e dualidade. O fascínio pelos
extremos é natural, mas a experiência mostrará que cada passo, seja em direção à
transcendência divina ou à exaltação da individualidade, tem seu valor. O segredo é
não temer as contradições do caminho. Aprender com cada experiência, encontrar
seu próprio ritmo e, gradualmente, construir uma visão mais ampla é a chave para
trilhar o Caminho do Meio com confiança e propósito.
